Ortografando 3

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Como ensinar as irregularidades ortográficas

A ausência de regras ortográficas para algumas palavras faz com que as crianças (e muitos adultos) tenham dúvidas sobre como escrevê-las. A consulta ao dicionário e a produção de cartazes ajudam a turma a aprender como usar as grafias corretas com segurança

por:
CM
 
Camila 
Março de 2011
Na Escola Projeto Vida, a professora Edivânia ajudou a turma a identificar palavras que fugiam às regularidades. Os alunos registraram todas elas em um cartaz. Edivânia acompanhou a frequência do uso do material até que os estudantes memorizassem as grafias. Foto: Raoni Maddalena
Na Escola Projeto Vida, a professora Edivânia 
ajudou a turma a identificar palavras que fugiam 
às regularidades. Os alunos registraram todas 
elas em um cartaz. Edivânia acompanhou a 
frequência do uso do material até que os 
estudantes memorizassem as grafias.
omem saiu de caza e foi pacear de ônibus pela sidade." Essa frase, cheia de erros ortográficos, causa estranhamento para muitas pessoas, mas certamente não para você, professor. Muitos alunos já escreveram coisas parecidas, não? 

Mesmo trabalhando as regras de ortografia, como as que determinam o uso de R e RR, a turma continua grafando alguns termos de maneira equivocada. Natural. A Língua Portuguesa tem muitas palavras que não obedecem a nenhuma regra. 

A regularidade existe quando é possível prever a escrita de um termo sem nunca tê-lo visto graças a normas que se aplicam a todos ou a muitos casos - como ocorre com o uso do R em "carro". Já os termos irregulares - definição de Artur Gomes de Morais, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no livro Ortografia: Ensinar e Aprender - têm sua escrita justificada apenas pela tradição do uso ou pela origem das palavras. É o caso de "passear" e "casa", que aparecem no início desta reportagem, e de outras mais, como os casos a seguir: 

- Som de S: Seguro, cidade, auxílio, cassino, piscina, cresça, giz, força e exceto. 

- Som de G: Girafa, jiló, geração e jeito. 

- Som de Z: Zebra, casa e exercício. 

- Som de X: Enxada e enchente. 

- H inicial: Hora, homem e hino. 

- Com disputa entre E e I e O e U em sílabas átonas que não estão no fim: Violino (que pode ser confundida com veolino), seguro (siguro), bonito (bunito) e tamborim (tamburim). 

- Com disputa do L com o LH diante de certos ditongos: Julho (que pode ser confundida com julio), família (familha) e toalha (toália). 

- Com alguns ditongos da escrita, que modificam a pronúncia: Caixa (que pode ser confundida com caxa), madeira (madera) e vassoura (vassora). 

Com a aprovação da Nova Reforma Ortográfica, que entrou em vigor em 2009, novas dificuldades surgiram. A exclusão do trema e do acento agudo em alguns casos, por exemplo, pode confundir quem está aprendendo a escrever. "As crianças vão questionar, por exemplo, por que 'frequente' é falado de um jeito e 'quente' de outro, mesmo ambas tendo a mesma grafia. Para aprender a forma correta, elas terão de memorizar", explica Beth Salum, doutora em Filologia em Língua Portuguesa e professora da Universidade de São Paulo (USP). 

Para ajudar a turma em tarefas como essas, nem pense em solicitar que escrevam repetidamente uma lista de palavras. Também não adianta planejar ditados - eles são úteis para avaliar o que está sendo aprendido, não para ensinar algo que ainda não se sabe. Existem duas atividades permanentes específicas para explorar bem a questão das irregularidades com os estudantes e ensiná-los a escrever com segurança e autonomia (leia as próximas páginas).
Consulta ao dicionário
Na EM Martha Drummond Fonseca, a professora Luciene diagnosticou as palavras que os alunos escreviam incorretamente. A turma foi buscá-las no dicionário, sempre com orientação. Os estudantes encontraram os termos e se familiarizaram com o material. Foto: Pedro Motta
Na EM Martha Drummond Fonseca, a professora 
Luciene diagnosticou as palavras que os alunos 
escreviam incorretamente. A turma foi buscá-las 
no dicionário, sempre com orientação. Os  
estudantes encontraram os termos e 
se familiarizaram com o material.
Oportunidade para os alunos que já conhecem a ordem das letras no alfabeto compreenderem como o material é útil para informar a grafia correta das palavras e também para aprenderem a consultá-lo mesmo sem saber como se escreve determinado termo. Nessa atividade, o importante é a frequência de propostas. Quando as crianças buscarem por "omem" e não encontrarem, provavelmente dirão que a palavra não existe no dicionário. "Esse é o momento para o professor perguntar de que forma os colegas procuraram o termo e se aquela é a única sugestão de como ele pode ser escrito", diz José Carvalho, professor do curso de Letras da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Esse foi o procedimento adotado por Luciene Carvalho Andrade, professora do 3º ano da EM Martha Drummond Fonseca, em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. "Fiz o mapeamento ortográfico levantando as palavras que eram grafadas de forma errada e pedi que a classe as buscasse no dicionário. Conforme a procura era feita, discutíamos as possibilidades de escritas até encontrá-las", diz Luciene (leia a atividade). Outra possibilidade é a consulta aos dicionários eletrônicos ou online. Eles oferecem sugestões de correção para a maioria das palavras digitadas equivocadamente. Essa facilidade não invalida o trabalho em sala. Sua missão nesse caso é fazer com que os estudantes percebam o erro e ganhem agilidade. Além disso, muitos oferecem a origem etimológica dos termos buscados, o que, na maioria das vezes, ajuda a compreensão da grafia convencional.
Elaboração de cartaz 

Momento de organizar um material de consulta com palavras irregulares recorrente. É uma ferramenta útil para memorizar e para firmar combinados com os alunos sobre quais erros não podem aparecer mais nas produções deles a partir de certo momento (leia a atividade). A organização das palavras pode ser feita de várias maneiras. "É possível elencar em ordem alfabética ou separá-las em categorias, como animais e cores", diz Luiz Cagliari, professor da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus Araraquara. Edivânia de Souza, professora do 3º ano na Escola Projeto Vida, em São Paulo, ajudou os alunos a elaborar esse recurso de acordo com o tipo de irregularidade. "À medida que eles reconheciam termos que fugiam às regras, registravam no cartaz. Ficou claro que o H inicial ocorria somente em alguns casos e que eles tinham de ser memorizados", ela diz.
FONTE: 

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